Em 25 de maio de 2020, uma gravação em vídeo mostrando a morte de George Floyd em tempo real por oficiais da polícia de Minnesota chegou ao noticiário. Quase imediatamente, a cobertura incessante sobre a Covid-19 desapareceu. Em seu lugar, veio um fluxo de vídeos, estatísticas e matérias destacando a relação trágica e complicada entre os afro-americanos e os policiais norte-americanos. Em poucos dias, americanos em todos os 50 estados saíram às ruas em protestos contínuos e sem precedentes contra a violência policial. Quando o mundo parecia ter despertado para a pandemia do racismo e da violência policial, os negros enfrentaram mais um lembrete duro de sua existência profundamente enraizada nos Estados Unidos.

No quinto dia desses protestos, a equipe do BET Insights (Departamento de Pesquisa da Black Entertainment Television), foi atrás da comunidade negra. Através de uma pesquisa online com 800 afro-americanos e 500 não afro-americanos, o BET perguntou a eles como estão reagindo e lidando com a recente cobertura e com os protestos relacionados a assassinados policiais de afro-americanos desarmados, e como eles pretendem pessoalmente agir contra a brutalidade policial no futuro imediato e além.

ATIVIDADE EM TORNO DOS EVENTOS RECENTES: Na maioria das vezes, os negros entrevistados estão se mantendo informados e se manifestando: 40% leram artigos relacionados aos assassinatos recentes e aos protestos subsequentes. Trinta e dois por cento postaram suas próprias palavras ou imagens nas redes sociais; 29% compartilharam o conteúdo de alguma outra pessoa. Em termos de partir para a ação, 22% assinaram petições, 16% dos entrevistados negros protestaram ou marcharam, e 14% doaram dinheiro para alguma causa ou esforço de ajuda. Os entrevistados negros de 38 anos ou menos tomaram mais frequentemente ações políticas imediatas, sendo duas vezes mais propensos a ter ligado ou escrito mensagens para algum representante eleito.

REDES SOCIAIS: Se existe alguma mídia para este movimento, são as redes sociais. Com exceção dos maiores de 45 anos, todos os entrevistados negros declararam que as redes sociais são sua fonte # 1 para notícias e atualizações relacionadas aos recentes eventos, os não-negros declararam o mesmo. Para muitos negros, as redes sociais se tornaram mais do que apenas uma fonte de informação. À medida que os estados norte-americanos começam a reabrir lentamente, mais de 32% dos entrevistados negros declararam que estão usando as redes sociais como uma forma de lidar com a questão, dando a eles um espaço para contar suas próprias histórias ou compartilhar a de outras pessoas. Em termos de planos a curto prazo, “compartilhar informação nas redes sociais” é uma das três principais maneiras que os negros planejam apoiar o movimento contra a violência policial.

LINDANDO COM A SITUAÇÃO: Diante do fluxo constante de notícias, os entrevistados negros se voltaram principalmente para a oração para lidar com a situação; 47% disseram que estão rezando como resultado dos eventos desta semana (51% das mulheres negras vs. 41% dos homens negros). Um terço declarou ter desligado suas TVs como resultado dos eventos recentes. Os homens negros estão buscando as redes sociais, lidando com seus posts nas redes sociais quase duas vezes mais do que as mulheres negras.

PROTESTO: Em pouco mais de uma semana, 16% dos entrevistados negros foram às ruas para exigir justiça e reformas através de protestos. As taxas relatadas dos protestos são mais altas entre os entrevistados negros vs. os não negros (16% vs. 10%). Além disso, os homens negros têm 42% mais de probabilidade de relatar que protestaram na última semana vs. as mulheres negras. Entre as faixas etárias, aproximadamente 19% dos entrevistados negros com 38 anos ou menos declararam que participaram de algum protesto (12% entre os de 39 anos ou mais). Observando os protestos através da forma como eles estão enfrentando isso, vemos uma correlação ainda mais forte entre as idades, com os negros mais jovens relatando os protestos como uma maneira de enfrentamento: 25% dos negros entrevistados com menos de 38 anos vs. apenas 10% entre aqueles com 39 anos ou mais.

Independente da participação pessoal em protestos, 76% dos entrevistados negros veem os manifestantes de uma maneira positiva vs. 70% dos entrevistados não-negros. A percepção positiva dos manifestantes é mais alta entre os democratas negros, entre os quais 82% veem os protestos como algo positivo. Apesar de declarar uma menor participação nas manifestações, os negros mais velhos têm uma probabilidade maior de ter uma visão positiva dos manifestantes.

POLÍCIA, MANIFESTANTES E UM PRESIDENTE: Pedimos aos entrevistados para classificar sua percepção dos diferentes grupos envolvidos nos eventos recentes: manifestantes, policiais, saqueadores, repórteres, autoridades eleitas de Minnesota, e o presidente dos Estados Unidos. De todos os grupos pesquisados, os entrevistados negros tinham a sensação mais positiva em relação aos manifestantes (76% positivo). Entre os entrevistados negros, a percepção mais negativa era em relação ao presidente, seguido pelos saqueadores e pela polícia. Entrevistados negros e não-negros diferem mais na percepção do presidente e da polícia, onde menos da metade dos entrevistados não-negros têm percepções negativas, 45% e 42% respetivamente, em comparação com 71% e 62% de percepção negativa entre os negros.

SENTIMENTOS MISTOS SOBRE OS PROTESTOS VIOLENTOS E SAQUES: Os entrevistados negros estão divididos quanto à validade dos protestos violentos: 30% concordam que “protestos violentos são tão válidos quanto os não violentos”, enquanto 24% discordam. Os homens negros e os entrevistados negros mais jovens (com menos de 39 anos) são os mais propensos a sentir que as duas formas de protestos são igualmente válidas (~35% concordam).

Os entrevistados negros têm mais empatia em relação aos saqueadores, em comparação com os protestos violentos. Quarenta e sete dos entrevistados negros concordam que “a frustração e a raiva são as causas dos saques”, e 46% concordam com esta afirmação “eu não apoio os saques, mas entendo o significado por trás deles”. Os sentimentos sobre as causas dos saques são semelhantes entre os não-negros (aproximadamente metade dos não-negros também concorda com estas declarações), no entanto existem diferenças na maneira como estes dois grupos se sentem em relação à punição. Quarenta e seis dos entrevistados negros concordam que “aqueles que saqueiam ou danificam propriedades durante um protesto devem ser presos” em comparação com 72% dos entrevistados não-negros.

RESPOSTA DOS GRANDES NEGÓCIOS: Mais de 50% dos entrevistados negros concordam que marcas e grandes organizações “deveriam ter se pronunciado antes” e, mais ainda, que estão se pronunciando agora “apenas devido à pressão”. Embora os entrevistados negros concordem com muitas ações que as marcas e os grandes negócios podem tomar para acabar com a violência policial, sua força política é o mais importante. Trinta e quatro por cento dos entrevistados, acredita que a coisa mais importante que as marcas podem fazer é se pronunciar contra os políticos que não trabalham para terminar a violência policial, ou retirar o apoio financeiro destes políticos. Embora a afiliação e o apoio político sejam importantes para organizações como a NFL e NBA, os entrevistados negros também esperam que estes grupos tomem partido publicamente. Trinta e cinco por cento dos entrevistados negros disseram que: “o reconhecimento público da injustiça” é a coisa mais importante que as organizações esportivas devem fazer para lutar contra a violência policial.

VIOLÊNCIA POLICIAL VS. BLACK LIVES MATTER (VIDAS NEGRAS IMPORTAM): Os entrevistados negros e os não-negros são igualmente favoráveis ao movimento para parar a violência policial (75% e 73% respectivamente), no entanto, os entrevistados não-negros ficam 10 pontos percentuais abaixo ao concordar com o movimento #BlackLivesMatter.

ATIVISMO VS. APOIO: Enquanto os entrevistados negros apoiam fortemente o fim da violência policial e o movimento #BlackLivesMatter (a concordância com cada movimento é de mais de 70%), menos de 20% dos negros se consideram “participantes” dos dois movimentos. Por outro lado, os entrevistados negros se identificam como “apoiadores” com muito mais frequência. Cinquenta e um por cento (51%) se consideram “apoiadores” do movimento para parar com a violência policial e 61% se consideram “apoiadores” do movimento #BlackLivesMatter. Os entrevistados negros com menos de 38 anos são mais propensos a se identificar como “participantes” de cada movimento, a taxas quase 3 vezes maiores do que os entrevistados com mais de 39 anos.

CAUSA DA VIOLÊNCIA POLICIAL: De acordo com nosso estudo, os entrevistados negros veem o racismo estrutural e a corrupção do sistema policial como os maiores fatores que contribuem para a violência policial. Quarenta e seis por cento dizem que o “racismo estrutural” teve um “impacto muito grande” na violência policial vs. 39% dos entrevistados não-negros (esta é uma diferença de 17%). Quarenta e um por cento sentem que “um sistema policial corrupto” teve um impacto muito grande na violência policial, em comparação com 38% dos entrevistados não negros. Por outro lado, “incidentes isolados com policiais ruins” é o fator mais impactante entre os entrevistados não-negros, 46% vs. 36% entre os negros pesquisados.

MOBILIZANDO-SE PARA O FUTURO: No curto prazo (de 4 a 8 semanas), os entrevistados negros acham que podem lutar melhor contra a violência policial através de apoio financeiro e engajamento político com suas comunidades; 40% acham que os negros “devem apoiar os negócios cujos donos são negros” e 35% “se envolver mais com a política de sua comunidade ou cidade”. Curiosamente, quando perguntados sobre qual a ação mais importante a ser tomada pelos negros a curto prazo, “apoiar a justiça social ou as organizações de direitos civis” aparece em primeiro lugar. Em termos de planos pessoais para as próximas 4 a 6 semanas, os entrevistados negros são mais propensos a apoiar os negócios pertencentes aos negros e compartilhar informações nas redes sociais (30% cada); 28% pretendem se envolver mais com a política da sua comunidade ou cidade. Os entrevistados não-negros são os mais propensos a compartilhar informação nas redes sociais (22%), se educar sobre política e sistemas judiciais (21%), e fazer doações financeiras (21%). Vinte e quatro por cento dos entrevistados não negros disseram que eles não eram propensos a fazer nenhuma destas opções apresentadas.

Finalmente, para causar um impacto na violência policial nos Estados Unidos, os entrevistados negros confiam mais nas mudanças da legislação do que nas mudanças na força policial, notando que eles sentem que o maior impacto na violência policial virá de “melhores leis para processar e condenar agentes policiais” (66%). Seguido de perto está o aumento dos votos dos negros a nível local (64%). Da mesma forma, quando perguntados sobre seus planos pessoais a longo prazo (de 6 a 12 meses) eles planejam impactar pessoalmente a violência policial, a maioria dos entrevistados negros (42%) planeja se concentrar mais nas eleições e 29% planejam se informar melhor sobre a polícia, o promotor público, e os compromissos oficiais de sua cidade local.